Mark Gatiss, o homem que quer dominar a cultura pop

O título deste texto,  na verdade, foi tirado de uma das divertidas respostas que Mark Gatiss, o Mycroft de Sherlock, roteirista da mesma série e de Doctor Who e produtor e roteirista do  doce  An Adventure In Space In Time, deu na coletiva de imprensa de que participei ontem na Livraria Cultura aqui em São Paulo – projeto de sucesso considerando que ele também tem participação na quarta temporada de Game Of Thrones.

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Muito britânico, divertido, sagaz, sarcástico e inteligente. É isso que eu penso de Mark Gatiss depois da oportunidade de vê-lo ao vivo.

Mark esteve no Brasil para participar como palestrante da RioContentMarket e também participou de dois encontros com fãs nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Aqui em São Paulo foi evidente a surpresa por parte dos organizadores por conta do grande número de presentes – talvez eles imaginassem que, por não ser um astro tão conhecido, apenas alguns aficionados aparecessem por lá.

Em São Paulo a assessoria da Livraria Cultura fala em 600 presentes (dê uma olhada na fila para retirada de senhas), que tomaram o terceiro piso da unidade da livraria localizada no Shopping Iguatemi e fizeram aquilo que fãs fazem: gritaram, se emocionaram e queriam saber mais sobre as obras que significam tanto em suas vidas.

Talvez eles tenham subestimado o número de presentes por motivo bem semelhante ao citado por Mark por não termos mais produtos tão bons como Sherlock e Doctor Who: “dizem que as pessoas não querem ver programas inteligentes, mas ninguém nunca desligou a televisão porque um programa era inteligente demais para ela, ao contrário, queremos ser tão inteligentes quanto o que estamos vendo.”

Mark disse algo semelhante ao ser questionado sobre ter se surpreendido em como os jovens se apaixonaram por um personagem de 127 anos como Sherlock, já que existe a percepção de que as novas gerações não leem: “Eu acho que nós vivemos em uma situação engraçada, as pessoas acham que os jovens não leem mais, você não vê mais as pessoas carregando livros de um lado para outro, e eu não acho que isso é verdade. Eu acho que apenas as pessoas leem de forma diferente. Nunca o acesso a informação foi tão fácil. As pessoas amam nosso programas, por que as pessoas amam os personagens e eu acho que Conan Doyle ficaria fascinado de ver como estes personagens ainda encantam as pessoas.”

É claro que ele foi questionado sobre o pequeno número de episódios de Sherlock por temporada e sobre o longo espaço de tempo entre cada temporada e foi categórico: a qualidade não será sacrificada para que o intervalo entre cada temporada seja mais curto e que, considerando que tanto Benedict Cumberbatch e Martin Freeman agora são estrelas internacionais, é preciso muito trabalho para conseguir que todo o elenco possa se dedicar a gravação de cada temporada.

Ele ainda contou que a ideia original seria temporadas com seis episódios de uma hora cada, mas a BBC pediu que fossem produzidos episódios de noventa minutos, formato que havia funcionado muito bem com Wallander. Eles aceitaram a oferta e estão satisfeitos com o que fizeram – e eu também, já que acredito que as histórias funcionam muito bem com esses minutos adicionais.

Com elegância ele se negou a responder o que podemos esperar de Moriarty na próxima temporada e falou um pouco de seu papel na série: “Mycroft obviamente se preocupa muito com seu irmão, mas não quer demonstrar isso.” Por outro lado, ele prefere que Mycroft não apareça tanto e espera que outros personagens do elenco de apoio, como a Senhora Hudson e Mary, ganhem bastante espaço.

Finalmente ele apontou Scandal In Belgravia como seu episódio favorito na série, ainda que ame todos os nove como “filhos”.

Falando sobre Doctor Who, Mark compartilhou o fato de ter sido um grande fã da série desde muito cedo, tendo escrito “roteiros” para ela ainda na escola. Sua paixão por história em geral se reflete no fato dos episódios que escreveu se passarem no passado e seu episódio favorito entre estes é The Crimson Horror.

Mark falou sobre a dificuldade que os fãs tem de lidar com a saída dos atores da série, muitos desejando um retorno de David Tennat e Billie Piper, por exemplo, e que é preciso que eles entendem que a vida seguiu, que hoje eles tem outros projetos e que o retorno, a não ser para a participação em especiais, é muito improvável.

Sobre a comoção que as comemorações dos 50 anos da série tiveram por todo o mundo ele foi categórico, e bem humorado: “You know, it’s Doctor Who!“. Ele considera que o trabalho realizado pelos roteiristas no episódio especial foi incrível, uma história fantástica que conseguiu recuperar elementos do passado de forma grandiosa e agradar tantos fãs. Contou ter assistido ao episódio ao vivo em um cinema e que pode ver a reação de fãs antigos com  a participação de Tom Baker, por exemplo.

Mark revelou, ainda, que um desejo seu para as próximas temporadas de Doctor Who é que as histórias possam viajar por outros países, mesmo que as filmagens sejam realizadas na Inglaterra e ele pede a todos que entendam que os rumores de que Capaldi ficará por apenas uma temporada ou que Moffat deixará a produção da série sejam entendidos como são: rumores.

“Vocês conhecem Notradamus, não? Todos os anos aparece alguém lançando um livro em que ele confirma alguma das previsões de Nostradamus depois de um grande acontecimento e caso ele não aconteça eles dirão que entenderam errado ou que era outro ano para acontecer. É semelhante ao que acontece com esses rumores.”

Falando sobre as duas séries ele explica porque Sherlock e o Doctor de Matt Smith na verdade são mais diferentes do que as pessoas costumam julgar: “O Doctor é um anjo que quer ser humano. Sherlock é um humano que acredita ser um anjo”.

Particularmente eu achei a explicação bastante justa, afinal é fácil relembrar momentos em que Sherlock despreza comportamentos humanos, como se ele não pertencesse a este grupo.

Sobre seu processo criativo ele explicou que algumas vezes encarar uma folha por horas antes que sua cabeça finalmente “responda”, na verdade ele usou apenas uma palavra para descrevê-lo antes de elaborar mais a resposta: “hell”. E que tenta manter distantes os comentários da internet, que muitas vezes são realizados enquanto os episódios ainda nem terminaram de ser exibidos (forma que ele considera irritante): “é preciso lembrar que da mesma forma que existe alguém falando o quão sensacional você é, que ama você, existe alguém ao lado querendo arrancar sua cabeça fora”.

Eu diria que, depois de ter tido a oportunidade de conhecê-lo, eu jamais vou querer arrancar sua cabeça, ou pelo menos vou guardar isso para mim.

P.S. Eu não fiz nenhuma pergunta para Gatiss, mas fiz para o pessoal da BBC: afinal quando teremos todas as temporadas de Doctor Who em DVD no Brasil? Bom, ficaram me devendo uma data, mas disseram que estão trabalhando para isso.

4 Comentários em “Mark Gatiss, o homem que quer dominar a cultura pop”

  1. Lu Monte

    *suspiro*
    Gatiss é brilhante, sai-se bem em todas as entrevistas, é um ator fantástico… ele faz um vilão na terceira temporada de Doctor Who, lembra? Lazarus, se não me engano.
    Gostodo Moffat, mas costumo acreditar que o gênio na parceria é mesmo o Gatiss.
    Muito boa essa referência aos anjos… em The Reichenbach Fall, tem uma cena em que ao fundo aparece uma parede pintada com IOU entre asas de anjo.
    Obrigada por compartilhar a experiência! 🙂
    *suspiro*

  2. Lu Monte

    Ah, sem contar o discurso no alto do prédio: “Posso estar do lado dos anjos, mas não pense nem por um segundo que sou um deles.”

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